Especial #5 Mudanças no Facebook: o algoritmo e a sociedade, uma relação de consumo e diferenças

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O Facebook, por meio de seu fundador e CEO Mark Zuckerberg, anunciou nesta sexta-feira, 12, mais uma mudança no algoritmo que gera o Feed de Notícias dos usuários da Rede Social. O Feed de notícias, ou Timeline, são a lista de publicações que o Facebook seleciona para aparecerem na página inicial de cada pessoa. Essas publicações vão desde fotos de amigos e parentes; a posts realizados por páginas curtidas pelo usuário ou, até mesmo, anúncios pagos e direcionados pelo próprio Facebook. A informação do fundador foi realizada por meio de seu próprio Facebook. A alteração nos dados do algoritmo é pelo menos a quarta grande mudança na rede em dois anos.

Pensando nestas mudanças o PLAY1 produziu para você uma série de sete reportagens especiais que irão ao ar diariamente no portal, aprofundando o tema sobre diversas óticas: desde como o Facebook deve passar a funcionar; a quais seriam as melhores estratégias para não ficar para trás. A quinta reportagem da série especial avalia, o comportamento do usuário e a preocupação sobre a capacidade de influência proporcionada pelo algoritmo da rede. Nos ajuda nesta avaliação o Consultor de Marketing Político e Digital, Josué Cidade.

O algoritmo

Imagine uma base de dados de mais de 150 milhões de brasileiros, com informações sobre localização e geolocalização (dados em tempo real de lugares onde uma pessoa esteve e onde costuma frequentar). Informações sobre preferências, gostos, hábitos e costumes. Dados atualizados sobre alimentação, moradia, religião, time de futebol, idade, preferência política, emprego e escolaridade.

Imagine ainda o valor desta base de dados, que contém todos os tipos de contatos possíveis, fotos, vídeos e, ainda, informações novas e atualizadas constantemente. Pense sobre o poder da empresa que detém dados 100% fiéis e seguros, realizadas e disponibilizados espontaneamente pelo próprio usuário, que fornece tudo com absolutamente alegria e satisfação pessoal. Tudo realizado por puro entretenimento, diversão e companhia. Bem-vindo ao Facebook.

Josué Cidade, consultor de Marketing Político e Digital

Informação e poder

Na visão do consultor de Marketing Político e Digital, Josué Cidade, a reflexão sobre o poder do algoritmo que calcula e produz o Feed de Notícias do Facebook individualizado, faz com que a própria empresa busque sua própria sobrevivência. Para ele essa sobrevivência depende da segurança do próprio algoritmo e da compreensão plena sobre o seu funcionamento. Por isso mais uma grande alteração no principal produto da rede.

Para ele, um dos grandes fatores que desperta essa reflexão sobre a rede social Facebook e a auto avaliação da própria empresa vem do resultado das eleições presidenciais de 2016 dos Estados Unidos. “O uso e a importância da plataforma, bem como das demais redes sociais e aplicativos digitais, deram esse sinal de alerta para a questão dos algoritmos. Pela primeira vez nós pudemos experimentar o poder das redes interferindo diretamente no curso de uma das maiores e mais consolidadas democracias”, lembra.

Cidade opina que a eleição de Donald Trump trouxe uma primeira grande inquietação sobre o funcionamento das próprias redes. “As pessoas passaram a ficar curiosas por conhecer mais sobre o funcionamento desse algoritmo. Qual a relação desse algoritmo e como ele vai impactar futuramente? Essa situação esteve perto de se repetir na França, por exemplo”, explica.

Segundo o consultor, a questão de como os algoritmos funcionam levanta debates da interferência desses dispositivos em diversos aspectos da vida. “Recentemente o El País divulgou um estudo de uma ONG sobre o funcionamento do sistema prisional americano e a probabilidade de reincidência de crimes, por acusados, calculada por algoritmo. E um criminoso negro recebeu uma pena maior que um branco em mesma situação”, conta. “Esse caso fez com que ele recorresse a Suprema Corte americana questionando os critérios usados na análise, que deu a ele desvantagem em relação ao outro preso de cor diferente. Uma questão de direito”, explica.

Cidade alerta que se há um algoritmo que influi diretamente na nossa forma de julgar agir e pensar, ele precisa ser avaliado e se necessário, repudiado pela sociedade. “Esse debate já é comum na Europa. Há algum tempo temos ouvido que o Facebook sempre tem mostrado mais do mesmo, criando bolhas de informações. Por um lado, esse ‘ponto cego’ permite um empoderamento de cidadãos comuns”, analisa. “Cria-se então uma relação de influência sobre um grupo de pessoas que tem as mesmas ideias ou pensamentos parecidos, é possível criar relações de influência deste microgrupo. Essa influência, este empoderamento pode ser perigoso, sobretudo em relação aos discursos de ódio”, adverte.

Preocupação

Para ele essa diferença de percentual gera uma preocupação natural em relação às novidades. “Nós que trabalhamos com Marketing Político sabemos que uma diferença de percentual pequena, uma amostra pequena, define eleições, por exemplo”, compara. “Então não é apenas uma questão de precaução, mas de compreensão sobre capacidade de influência e impacto. E hoje as pessoas querem entender como funciona, afinal não é uma questão de entretenimento, há uma mecânica por trás disso. É necessário entender como as empresas usam e querem usar essas informações. E esse é o sonho de qualquer corporação, ter e analisar dados e afim de determinar comportamentos e reações”, previne.

Na opinião do consultor, o caso Trump é emblemático para exemplificar a questão. “Trump e sua equipe propagavam diversos tipos de discurso para vários grupos distintos. Desde discursos de ódio à debates pensados nas minorias. E essas minorias não se enxergavam. O que é diferente de ir na TV e falar para massas”, ensina. “Essa diferença de necessidades, trabalhada de maneiras específicas e individuais, essa segmentação de discurso trouxe um crescimento fragmentado, só sentido como um todo, ao final. Uma relação de influências construída pouco a pouco”, explica.

Segundo Cidade, essa questão, somada aos discursos de ódio tem origem na quebra de barreiras geográficas proporcionada pelas redes. “As pessoas têm um grupo de convívio, uma ótica e um ponto de vista. Nas redes tudo isso se mistura. E em diversos momentos as pessoas se encontram e as opiniões se chocam. São culturas diferentes e a própria sociedade não estava pronta para esse embate cultural”, explica. “Vemos isso desde a ascensão de cantores que jamais veríamos fazendo sucesso sem as redes sociais, ao campo das discussões. Não há mais essa restrição do ambiente controlado. Passou-se a ser necessário conviver com o diferente e isso gera uma inquietação e uma tensão no tecido social”, ressalta.

Para o consultor, muitas vezes essa quebra de paradigmas e verdades sociais tidas como absolutas gera embates “Toffler escreveu um livro prevendo todas essas alterações. Desde a agricultura, à indústria, chegando à sociedade da informação, onde haveria essa mistura social. O que ele não previa era que isso não seria de forma pacífica. Hoje vemos o aumento da discriminação, do radicalismo, e isso tudo estava muito escondido”, lembra. “Hoje parece que as pessoas se enxergando, elas têm mais facilidade em se assumir. Como no caso de assumir seu racismo, sua homofobia, suas opiniões políticas, buscando o protagonismo digital”, aponta.

Na visão dele, esse é o maior risco proporcionado pelo algoritmo. “O algoritmo faz isso, essa busca de audiência faz isso. Utiliza-se fatos comuns ou fatos políticos e a pessoa sem produzir muito só comenta e republica. Isso faz muitas vezes que ela ganhe autoridade frente a determinados grupos”, explica. “O algoritmo segmenta como para um espelho. Reunindo visões e pessoas iguais a você. Isso gera empoderamento. É onde está o perigo. Muitas pessoas acabam até se abstendo de viver isso, buscando evitar a contaminação. As pessoas acabam cansando e se sentindo impotentes”, lamenta.

Para o consultor é necessário grande atenção ao funcionamento do algoritmo do Facebook.

Outro lado

Segundo Josué Cidades, a mudança no algoritmo do Facebook também pode trazer pontos positivos. “As pessoas estão tão sobrecarregadas e feridas por essa briga, essa inflamação de discursos que muitas vezes desistem da rede. Então essa alteração pelo Facebook busca justamente isso, limpar um pouco dessa discussão. Transformar a interface deixando ela mais amigável. E isso é muito bom, a relação interpessoal é favorável”, projeta.

Em relação à construção das imagens, como no caso dos candidatos políticos, a rede por meio de seu novo algoritmo também pode auxiliar o processo. “É possível sim construir uma boa imagem, por que nas redes sociais o que importa é a reputação. O que a pessoa é no analógico, na vida real, ela refletirá na vida digital. Não tem como desconstruir a imagem ou projetar algo só no digital. Rapidamente ela é desmascarada. Por mais que você monitore e avalie, não há como evitar”, analisa.

Candidatos na Rede

Na opinião do especialista, ainda é pouco notada a presença de candidatos nas redes sociais, em função da ‘vocação digital’. “Vemos poucos políticos nas redes, com frequência e costume. E quem está acaba sendo frio. Uma rede alimentada por fotos, eventos e assessores nunca é fiel à realidade. Você precisa ter costume, hábito, familiaridade, pessoalidade. Não há como construir uma imagem fora disso. É necessário entender, mostrar conhecimento e fazer pessoalmente”, ensina. Para ele, a ajuda dos assessores também é importante, se estes tiverem vocação e conhecimento digital, mas não substitui a presença real do candidato. “Sem esses aspectos, as campanhas digitais estão fadadas ao fracasso”, finaliza.

A atuação dos políticos ainda precisa ser avaliada e melhorada para que os resultados sejam mais visíveis. “As redes propagam informações, divulgam, difundem. Não se cria uma imagem. Se propaga uma imagem. Nisso a atuação dos políticos ainda tem sido desastrosa. Isso é importante inclusive em grandes estados, como no caso do meu estado, o Pará, que tem proporções continentais e os candidatos não trabalham as redes sociais”, critica.

Para ele, a mudança de comportamento das pessoas indica a necessidade de uma nova visão dos políticos. “A sociedade mudou, mudou seus hábitos de consumo, sua forma de pensar. Ainda se joga lixo na rua, dá-se o jeitinho, mas em termos de rotina está diferente. Os critérios, como honestidade, educação, responsabilidade e busca de informações tem dado o tom nessas pré-campanhas. A própria repercussão da Lava-Jato vai impactar no pleito de 2018”, garante.

Guilherme Rocha

Play1

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