Quando um cruel assassinato vira palanque eleitoral

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A execução da ex-vereadora pelo Rio de Janeiro (PSOL) se tornou centro político de uma discussão entre bem e mal. Polícia e bandido. Mas se a vida (ou a morte) tivesse real valor, a professora que salvou a vida das crianças em minas seria heroína nacional.

A ex-vereadora pelo Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) foi cruelmente assassinada. Doeu? Sim. Muito. Humanamente. Socialmente. Familiarmente. E só se fala nisso. Ela receberá uma justa homenagem-póstuma: será nome de uma escola municipal em Pedra de Guaratiba, na zona oeste do Rio.

Mas Heley (ou Helley, como gostava de ser chamada) de Abreu Silva Batista, 43, também foi assassinada. Sim, aquela professora mineira que se sacrificou para salvar a vida de seus pequenos alunos. Tudo isso em uma creche que foi incendiada por um segurança da própria instituição da pacata Janaúba, no Norte de Minas. Morreu em outubro de 2017. A menos de uma semana do dia das crianças. Fazendo por elas o que amava. Ensinar. Cuidar. Proteger.

Mas parece que ninguém liga. Não teve edição especial completa de nenhum veículo. O Jornal Nacional não terminou em silêncio. Não teve foto gigante nos estados. Ninguém parou a Paulista. Não teve fala do presidente da Câmara, nem do Senado.  Não teve biografia. Não teve Mulher do Ano.

A mulher mais forte da nação, presidente da Suprema Corte, não ficou consternada. Os ministros do STF e STJ não se manifestaram. O País não parou. Quem dera se as cinzas daquela brava mulher fossem apenas um ilustre dedo de pé direito famoso. Quem sabe assim haveria algum valor. Choraria-se mais alguma dor. Comoção, tristeza, ou um mísero torpor?

O que se viu foram algumas poucas reportagens durante alguns dias. Um caminhão de bombeiro que transportou o corpo desta também valorosa mulher ao seu próprio velório. E uma creche que foi reconstruída com ajuda de empresários locais.

Ontem, 19, pela primeira vez, pais e alunos voltaram ao local. A creche Gente Inocente, rebatizada de creche Helley de Abreu. Que ainda precisa da aprovação dos Vereadores para manter a homenagem. A escolhinha foi reinaugurada e deve voltar a ser utilizada neste segundo semestre em Janaúba (MG). Em janeiro deste ano, no município de Serrinha em Fortaleza (CE), uma creche também foi erguida em homenagem à professora.

Mas, tirando a dor da família de Heley, e o letreiro na parede de entrada das creches, a destemida professora parece ter sido esquecida. Pelo governo. Pelos jornais. Pela sociedade.

Será que os ideais dela eram menos importantes que os de Marielle? A luta dela era menos válida? A morte foi menos heroica? Ela era menos mulher? Seu dia-a-dia menos sofrível? Sua ascendência menos negra?

Talvez Heley fosse menos glamurosa! Talvez a favela que vivesse fosse menos famosa! Seu pequeno município menos midiático! Seu palanque, uma simples sala de aula de crianças, menos chamativo! Seu salário menos valoroso! Sua luta menos afrontosa, quizá menos política.

Talvez falte fascínio pela professora Heley e por todas as demais 12 vítimas, incluindo as jovens crianças, que morreram carbonizadas no incêndio da creche. Ou pelos 134 PMs assassinados no Brasil no ano passado. Ou ainda pelo motorista Anderson Pedro Gomes da ex-vereadora Marielle, que também foi baleado e morreu.

Mas já dizia o ditado: pobre ser estudioso é a maior revolta que pode existir contra o sistema. Assim como a Marielle nasceu pobre. Assim como Heley com soldo de R$1500 mostrou que valor não se compra. Como tantos professores de comunidades do Brasil afora. Como tantos militares que sobem essas comunidades para tentar proteger as crianças que lá se formam; e são criticados por quem defende que bandido é vítima da sociedade. Como o assassinato do motorista Anderson Pedro Gomes. E todas as outras vítimas anônimas da nossa sociedade que são mortas no Brasil. Sim, por todos estes, não só um minuto de silêncio, mas toda a mudez de nossa mídia, de nosso governo e de nossa sociedade.

Guilherme Rocha
Editor Chefe
Play 1 e O País

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