Síndrome de vira lata: a irritante mania dos políticos brasileiros de inaugurar coisas inacabadas

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Inaugurar hospitais sem acabamento, farmácias sem medicamentos, escolas sem cadeiras, creches sem merenda, estádio de Copa do Mundo com infiltrações, centro administrativo de governo sem teto, parede, gesso, acabamento, mobília, com fiação exposta, como a casa número zero, na Rua dos Bobos, cantada por Vinícius de Moraes.

A tônica é tão comum Brasil afora que as Casas Legislativas do Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Norte e Tocantins precisaram aprovar projetos de Lei que proíbem a prática nos respectivos Estados, cujo descumprimento implica em punição aos gestores.

Embora o projeto em âmbito nacional ainda tramite na Câmara dos Deputados na forma do PL 7333/2002 (de Pompeo de Mattos – PDT/RS) e seus tantos apensados apresentados por outros deputados, a prática não é Lei no País. Muito menos no DF.

E mais um desses tantos exemplos deu o Governo da Capital e seu governador Rodrigo Rollemberg. Na manhã da última quarta-feira, 31, encerrando o primeiro mês do ano eleitoral com chave-de-ouro, o gestor convocou uma coletiva de lançamento do aplicativo +Ônibus Brasília. Um baita projeto de acessibilidade digital para os usuários do transporte coletivo na cidade.

Não fosse pelos defeitos de sincronia entre o tempo previsto pelo aplicativo para a chegada do ônibus na parada e sua real chegada; o sistema de pesquisa falho, com critérios de busca mal definidos; a falta de algumas paradas; a ausência de manuais de ajuda do funcionamento do App; o nome incorreto do aplicativo (que ainda no lançamento era +Ônibus Geocontrol, título da empresa que desenvolveu o serviço); a não disponibilidade do aplicativo para iPhones e iPads (que só ocorrerá na segunda quinzena deste mês); e a absurda ausência de quatro das seis empresas de transporte que operam na cidade. Mas, acreditem, esse não é o problema.

Nem mesmo o fato de o aplicativo ser extremamente lento, travar toda hora e apresentar diversos bugs. Mesmo em celulares com excelente capacidade de processamento e com boa conectividade com a internet. Muito embora, diga-se de passagem, não deveria ser exigência para quem, de fato, necessita de transporte coletivo. Não, esse não é o problema.

Muito menos a tentativa de se construir soluções, ainda que atinjam uma minúscula partícula do todo, deixando de lado os excluídos digitais e os mais pobres. Faz parte, é natural do processo. Atender poucos é um começo para atender todos. Realmente, o problema não é esse.

Nem pelos tantos problemas naturais de uma versão Beta. Nem pelos defeitos que surgem na avaliação do processo. Nem pela iniciativa, afinal o projeto é interessante. Nem pelo sol, nem pela lua. Mas pela famigerada e irritante mania dos políticos brasileiros de inaugurar produtos, obras e serviços que ainda não estão finalizados. Como muito se fala por aí, a tal da nossa síndrome de cachorro vira-lata.

A tal mania de sermos pouco exigentes, de acharmos e aceitarmos que tudo que se faz no Brasil é ruim e de baixa qualidade. Aquele vício de dar o jeitinho brasileiro. Não como expressão máxima da nossa criatividade e espontaneidade, mas como atestado de que mais vale uma propaganda de campanha mal feita que um produto bem realizado. Como dizia um chefe italiano que trabalhei há alguns anos “Brasil e suas brasilianidades”.

“Até fim do ano às demais empresas farão parte da plataforma”, diz o governo. “Até o fim ano o sistema indicará todas as paradas”, eles repetem. “Até o fim do ano os problemas estarão corrigidos e os bugs sanados”, insistem. “Até o fim do ano o sistema que trava com apenas 200 usuários que tinham baixado o programa, vai rodar de forma limpa”, teimam. Só não explicam por que então não o lançaram em dezembro.

Mas sim, com uma emenda daqui, um remendo dali, um aditivo acolá, um adendo de lá e um acréscimos de verbas do além, um dia, esperamos que a população tenha não somente um aplicativo de transportes útil, mas um transporte público de qualidade.

Redação Play1/O País

Guilherme Rocha

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